É tão fácil insultar o mundo
Do cimo de uma estátua
De granizo!
Atiro culpas como quem cospe pedras!
Exibo os pés sangrados, protesto!
Arranco aos olhos as lágrimas
Faço delas a areia no deserto...
É tão fácil apontar o dedo
Quando uma multidão dormente
Atravessa uma avenida
Em hora de ponta...
Ergo braço, reivindico a mão decepada!
Arremesso dardos e flechas
Para justificar um fim!
Acuso os pássaros dos ais
Que as dores soltam
Da minha garganta degolada!
Apenas
Porque recuso olhar-me ao espelho
Temendo cansar-me de mim!
Porque limitei a coragem à inércia...
Construí
Os claustros do meu isolamento...
Fui o operário do meu tormento!
Vivi solto numa cela
De pedra e luto
Como o fantasma
De um sonho devoluto.
Porquê?!
Nem sei…
Sei
Diante do amor
Diante da paixão
Como covarde
Recuei!
Quem esperou por mim
Na curva de um impulso
Que abrisse as portas
A uma vida em comum?
Quantos se deitaram nos meus lençóis
À espera de carinho e consolo
E depois partiram
Deixando-me sozinho
Afogado no desconsolo?
Nos lábios um conselho:
- Nunca digas a ninguém...
Quem?
Nem um sinal, uma palavra, um olhar
Ribombaram nos céus em forma de trovão…
Nem o vento escreveu na areia da praia
O nome… apenas um nome…
Quem me esperou?
Ninguém!
Perguntava-me então:
Para quê erguer o rosto
Fixar-me num espelho sem reflexo
Afirmar diante de mim
- Sou gay?
Iguais… Todos iguais…!
Machos de um mundo homem!
Beijam-me os lábios na cama
Apertam-me as mãos na rua
Ardem comigo na mesma chama
Devoram-me a pele nua
Tudo em mim os excita
Tudo lhes dá prazer!
Diante dos amigos
Nas praças da cidade
Consumiam a mesma falsa ansiedade
Com o olhar suspenso
No corpo de uma mulher!
Amarroto o ciúme
Nos lençóis suados
Pela confusão de todos esses corpos…
Nessa agonia
Nesse lume
Recupero tudo o que lhes dei...
Olho-me ao espelho:
- Sou gay?

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